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HISTÓRIAS TRANSFORMADORAS

Edvaldo Pereira Lima - jornalista e escritor





 

Versão século XXI da milenar arte de contar histórias, o storytelling está conquistando crescente presença nos circuitos do marketing corporativo e governamental, introduzindo-se como uma promissora novidade nos processos de comunicação coletiva.  O que está acontecendo, de fato, é uma adaptação ao mundo das organizações – privadas ou governamentais -  de um modo e procedimento de comunicar que já se revelara bem sucedido em  outros setores da sociedade moderna, como na indústria cinematográfica e no jornalismo literário, modalidade menos conhecida – mais empolgante, porém – da prática jornalística.

Ingrediente fundamental das produções de profissionais do quilate de um Steven Spielberg ou de um James Cameron, no cinema, de um Gay Talese ou de uma Eliane Brum no jornalismo literário, o storytelling propõe uma forma de comunicação muito mais orgânica, envolvente, prazerosa e eficaz do que o modelo ainda prevalecente nas organizações.  

Simplificando um pouco, para efeito deste artigo, se pode classificar os modelos-matrizes de comunicação coletiva como alinhados a dois paradigmas básicos. O modelo predominante tem base excessivamente cartesiana, racionalista, transportando, implicitamente, uma visão de mundo simplista.  A abordagem é linear. É fruto do grande desenvolvimento da ciência e do apogeu das abordagens racionalistas da realidade que acabaram conquistando o lugar mais alto no olimpo da cultura contemporânea ocidental, influenciando sobremaneira quase todas as esferas da ação humana, da educação à comunicação de massa.

Os efeitos estão visíveis na maior parte do conteúdo noticioso dos jornais diários, por exemplo, onde os textos procuram uma objetividade fugidia e uma exatidão informativa que tenta passar aos receptores o valor implícito de que a notícia é séria, crível, confiável. Por isto os textos seguem quase sempre uma fórmula onde os fatos têm presença destacada, mas os fatores contribuintes menos explícitos são ignorados. Ao simplificar a realidade desta maneira, os veículos de imprensa informam o feijão com arroz dos acontecimentos, mas falham em encontrar o banquete de significados onde coexistem pratos de sabores mais refinados. Parecem ainda estar presos ao velho dogma da ciência do século XIX de que existe a certeza, nos processos de observação – e portanto relato – da realidade. Ora, a física quântica já há muito tempo trouxe ao mundo o princípio da incerteza. Trouxe também a proposta de que a realidade não é unidimensional, mas sim multi dimensional.

As organizações adotaram essa matriz nos seus processos de comunicação. Se é útil e conveniente, em determinadas circunstâncias, é porém limitada em várias outras. A comunicação linear, formal e racionalista informa, mas não motiva.  Está presa ao passado. É reativa. Isto é, apenas responde ao que já aconteceu.   É fria, quase sem alma.   Não consegue avançar para além dos fatos primários, enxerga pouco da realidade. É míope, porém arrogante. Impõe sua visão de mundo, mal sabendo que seu status é o de cego que se imagina todo conhecedor, mas na verdade toca apenas o rabo do elefante, sem conseguir perceber que aquela aparente vassoura felpuda é apenas parte de um animal encorpado muito maior.

Para esse modelo de comunicação, o mundo é feito de ações lineares. Toda ação tem uma – e uma apenas, ou poucas – causa. A relação é simplista. E o ser humano é visto como dotado de capacidade racional e, no máximo, emoções de um nível bastante simplório. Consciência – e ampliação da mesma – atrelada ao processo de individuação é algo ignorado. O ser humano é, em tintas um pouco extremistas, visto como apenas um robô melhorado.

Em paralelo a esse filhote do racionalismo imperante, as sociedades convivem, porém, com outro modelo de comunicação, hoje ocupando a periferia do nosso sistema cultural. É um modelo de raíz longínqua e profunda.  Algumas de suas características estão presentes nos relatos mitológicos da antiguidade, nos contos de fada, na literatura, na arte teatral de todos os tempos e lugares.

Em lugar de uma visão de mundo simplista, transporta, implicitamente, uma visão de mundo complexa. Em lugar de atenção exclusiva aos fatos, abre-se para a busca de significados. Em lugar de esperar do ser humano uma capacidade de entendimento e percepção da realidade centrada exclusivamente na sua função mental – mais a emocional de baixo nível, no máximo -, a aceitação de que também opera níveis emocionais sofisticados, assim como é dotado de uma habilidade notável de leitura chamada intuição.

Os significados, elementos que dão sentido a uma mensagem, acata esse modelo, surgem do cruzamento de vários fatores, e são quase sempre materializados através de processos simbólicos.  O vencedor de uma importante prova esportiva recebe um objeto como símbolo de sua conquista. O troféu pode ser fisicamente feio, sem graça, mas o atleta vibra e o sacode para a plateia num jorro de emoção, pois a peça inerte é uma representação de muito esforço e dedicação e garra na superação de inúmeros obstáculos que um campeão enfrenta.

Assim, o storytelling não quer apenas transmitir informação, registrar fatos. Quer transportar sentidos. E esses só produzem efeito se o ato da comunicação acontecer de um modo envolvente, solto, rítmico, trabalhando a conjunção dos diversos sentidos de percepção disponíveis ao ser humano. Suas narrativas centram-se de fato na figura humana. Criam laços entre o autor, o narrador, o receptor, a história. Une tudo.

O mais interessante, ainda, é que o storytelling não precisa ficar preso ao passado. Não precisa ser exclusivamente reativo aos acontecimentos. Pode ser proativo, antecipar possibilidades, dar guarida a sonhos, sugerir caminhos. Pode ajudar a construir o futuro imediato.

Como se transmite um sonho, porém?  Como se lança os alicerces de probabilidades e de construção do novo? Como se engaja a adesão de aliados a um processo de edificação de uma proposta honrável?

Faz-se a comunicação apoiar-se em valores profundos.  Dá-se a ela a liberdade de ocorrer no plano mental, emocional, intuitivo e até espiritual. Dignifica-se o ser humano.  Direciona-se seu foco para o movimento da co-construção do futuro que podemos realizar juntos.  Entrega-se espaço e tempo suficientes para os visionários compartilharem seus vislumbres de futuro. Aceita-se contar histórias de quem rompe com coragem os paradigmas fossilizados imperantes na sociedade, enxergando horizontes que a maioria mal imagina.

Conta-se a história com sabor.  Mergulha-se na realidade com prazer. Busca-se os seres humanos que estão dedicados de espírito e alma, espontâneos e genuínos, a seus afazeres transformadores.  Aceita-se a diferença e a diversidade.  Coloca-se a arte de contar histórias a serviço de um propósito maior: ajudar a construir a mudança das mentalidades e das visões para uma perspectiva sistêmica, integrada, holística, humana e sustentável da civilização.  Respeita-se a Natureza, interage com Ela, cria-se inspirado por Ela e a partir Dela. Olha-se para fora, para o mundo, como se olha para dentro – para o oceano interior de cada ser humano -, sabendo-se que o movimento externo só produz efeito transformador se o indivíduo também acionar a dinâmica interior.  Só pode haver mudança significativa lá fora se me dou ao prazer de conhecer e mudar o que for necessário do meu território íntimo de realidades.

Pode-se aliar o prazer a um propósito maior: o de contribuir para a expansão de consciência das pessoas.

O storytelling que está conquistando o possível status de moda, nos espaços do marketing contemporâneo, está a serviço de propósitos aceitáveis, mas horizontais. Ajuda uma organização a se comunicar melhor com seus públicos.   Torna-se instrumento estratégico e tático para conquistar objetivos. Tudo bem.

Contudo, coloco aqui neste artigo um propósito vertical: que o storytelling ultrapasse o desempenho de um papel conservador, maquiador e mantenedor de um modo de ser acrescentado de mudanças meramente superficiais. Que ouse servir ao propósito de reflexão do estado atual do mundo e de compartilhar de possibilidades transformadoras, para melhor. Exige coragem, determinação, fibra, vontade e amor. Amor pela vida, pelos seres, pela Existência mesma. E fé em que poderemos, como seres humanos, dar um passo gigantesco em direção ao nosso potencial de espécie iluminada.

Para isto, o storytelling pode voltar-se ao futuro.  Proativamente. Usar a imaginação.  Pensar para além da caixa preta dos códigos assentados na nossa cultura e no nosso tempo presente. Discutir temas importantes com o sabor da boa história contada.

Permita-me, leitor, terminar com a referência a um caso pessoal. Quando escrevi meu livro Colômbia Espelho América 26 – publicado recentemente pelo sistema editorial Clube de Autores -, queira mais do que escrever simplesmente uma narrativa de viagem. Queria introduzir um tema inerente a ela, tal como enxerguei. Em lugar de uma abordagem analítica, fria, decidi-me pela imaginação: 

Amazônia Continental, ano de 2051. Atravessamos o embarcadouro móvel flutuante e logo estamos dentro da nave. Tudo começa a acontecer rápido, porém suave. As portas se fecham, o veículo se ergue uns cinco metros sobre o rio. Não me perguntem exatamente como, sou apenas o cronista registrador de faces desta múltipla e complexa realidade em que vivemos mesclados Homens e Máquinas e Natureza, Povos e Planetas e Civilizações. A nave entrou em serviço há pouco, o passageiro não sabe muito bem como é a coisa ou pouco se interessa. Mas parece que os técnicos conseguiram gerar um campo magnético sobre a superfície da água, que eleva nosso transportador.

No visor individualizado, a meu lado, um toque de dedos sobre o sistema informativo. Som, imagens e textos introduzem o que vamos conhecer. O uso integrado dos rios amazônicos já é realidade em que prevalecem critérios do melhor bom senso. São administrados pelo consócio integrado dos países da região, desejosos de provar que enfim o continente aprendeu a se cuidar como um todo, de modo interdependente com as outras regiões desta Casa de Moradia Cósmica chamada Terra. Por isso, ninguém mais devasta as matas daqui, porque sabe do prejuízo ecológico que vai causar aos vizinhos andinos. Pois não é nos Andes que se formam os gelos que dão origem a muitos desses rios? E não são os Andes que servem de muro de proteção aos ventos do Pacífico, permitindo-nos usufruir o clima imune a temperaturas baixas, em que pese o calor de fazer pingar os líquidos do corpo como sorvete de verão?

 

Imaginar, sonhar, projetar, fazer.   I have a dream. Martin Luther King.

Qual é o seu?   Qual é o do seu vizinho? Quais são os de todos nós? Como podemos dar-lhes vida, se não os contamos e não mobilizamos os nossos aliados para os horizontes que vislumbramos?

É para dar vida aos sonhos nobres que também existe a tradição do storytelling.




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